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Jornalistas nicaraguenses Miguel Mora e Lucía Pineda são libertados graças a polêmica Lei de Anistia



Na madrugada de 11 de junho, o diretor e a chefe de informação do meio nicaraguense 100% Noticias, Miguel Mora e Lucía Pineda, foram libertados após seis meses na prisão.

Mora e Pineda foram libertados junto com presos políticos e líderes de manifestações contra o governo que começaram em abril de 2018. A libertação do grupo começou em 10 de junho, como resultado da aprovação da controversa Lei de Anistia na Assembleia Nacional da Nicarágua. De acordo com a lei, todas as pessoas que supostamente cometeram crimes durante a crise política estão absolvidas, informou a BBC News Mundo.

Em relação à lei e após sua libertação, Mora ressaltou que nunca foi condenado, que seu julgamento foi adiado seis vezes e, portanto, ele não deveria ter sido anistiado, segundo um vídeo publicado pelo Artículo 66 no Facebook.

"É um simples sistema corrupto de justiça: o presidente [Daniel] Ortega ordena que seus militantes acusem fulano por homicídio, o promotor o apreende, o apresenta diante de um juiz sandinista e eles o jogam na prisão, sem iniciar um julgamento, meio ano. Foi o que aconteceu", disse Mora sobre seu caso à jornalista nicaragüense María Lilly Delgado, da Univisión, no vídeo do Artículo 66.

"É que eu não sei que tipo de lei é essa, porque de acordo com o que estão me dizendo agora, é uma lei de anistia, mas lembra, tem memória, ou seja, se você for de novo a uma marcha ou se nós voltarmos a informar, pode ser que nos coloquem de novo na prisão! Nós informamos, aqui houve um massacre, aqui crianças morreram, 30, e jovens. Essa é uma verdade. Aqui há uma ditadura", enfatizou Mora aos jornalistas.

Sobre os seis meses que passou preso no Sistema Penitenciário para Homens "Jorge Navarro", prisão conhecida como "La Modelo", Mora disse à imprensa que o governo estava tentando quebrar seu espírito, tratá-los como animais. “Aos prisioneiros políticos nos tratavam pior do que isso, porque a orientação era quebrar nosso moral, que nós lhes pedíssemos perdão", disse Mora no vídeo publicado pelo Artículo 66.

Pineda disse à imprensa que sofreu ataques psicológicos durante sua prisão e que o que o governo tentava com isso era criminalizar seu direito de informar. "Nos diziam que éramos golpistas", disse Pineda no vídeo publicado pelo Artículo 66. A jornalista explicou que, na prisão conhecida como El Chipote, a polícia exigiu que ela fizesse um vídeo no qual pedia perdão a Ortega por tê-lo chamado de ditador.

"Lá, em El Chipote, eles me colocaram por uma semana sozinha em uma cela", contou a jornalista. Outros presos de celas vizinhas liam para ela a Bíblia e oravam juntos, disse Pineda. Em 30 de janeiro, ela foi transferida para a prisão feminina La Esperanza, onde foi mantida em uma cela isolada até sua libertação, em 11 de junho.

Mora e Pineda afirmaram perante seus colegas jornalistas que vão continuar informando e fazendo seu trabalho jornalístico.

"Acho que vou viajar para a Costa Rica por alguns dias, mas é claro que quero continuar no 100% Noticias", anunciou Pineda. "Tenho que ir para a Costa Rica porque tenho muito a agradecer à Costa Rica. É minha outra pátria", disse ela.

Os dois jornalistas ficaram presos desde 21 de dezembro de 2018, quando um grupo de policiais invadiu a redação do meio, tirou o sinal do ar e os levou primeiro para El Chipote.

Eles foram acusados ​​de "fomentar e incitar ódio e violência" e "provocação, proposição e conspiração para cometer atos terroristas".

Durante a ditadura de Anastasio Somoza Debayle, que foi derrubado em 1979 pela revolução sandinista que agora governa a Nicarágua com Ortega como líder, os rebeldes eram torturados e fuzilados na prisão El Chipote, segundo um artigo do Diário Las Américas.

Em 10 de junho, o primeiro grupo de 50 presos políticos foi libertado. Um jornalista de Masaya, Marlon Jerónimo Powell Sánchez, estava entre eles, de acordo com o Artículo 66.

De acordo com uma reportagem de El Confidencial publicada no início de junho, após as manifestações de abril de 2018 contra o governo de Ortega, Powell foi acusado de terrorismo pelo governo, junto com um grupo de pessoas.

Desde julho de 2018, ele passou vários meses na clandestinidade, fugindo das autoridades, até que em 7 de março foi detido e levado para El Chipote, onde ficou preso por 53 dias antes da abertura do processo judicial e foi transferido para a prisão “La Modelo”, publicou a reportagem.

Na cidade de Masaya, no departamento de mesmo nome, Powell trabalhava como jornalista e diretor do programa "El dedo en la llaga", que era transmitido na Rádio Estéreo Caliente e na Rádio La Consentida.

Segundo El Confidencial, Powell denunciava em seu programa os abusos do governo de Ortega e da prefeitura de Masaya.

O Comitê para a Proteção dos Jornalistas (CPJ) publicou em 10 de junho, um dia antes de Mora e Pineda serem libertados, um anúncio de página inteira no jornal norte-americano Washington Post, no qual conclamaram Ortega a cumprir sua promessa de libertar os jornalistas de 100% Noticias.

Uma delegação da Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP), liderada pela presidente da organização, María Elvira Domínguez, que chegou à Nicarágua em 10 de junho para exigir a libertação de Mora e Pineda, foi “gratamente surpreendida” com a notícia da libertação dos jornalistas, segundo a organização publicou em seu site.

A SIP também tem em sua agenda exigir do governo a resolução do assassinato do jornalista Ángel Gahona, ocorrido em 21 de abril de 2018.

Desde 18 de abril de 2018, quando nicaraguenses se rebelaram contra o governo de Ortega e da primeira-dama, Rosario Murillo, após uma tentativa de reforma do sistema previdenciário, mais de 300 pessoas morreram em consequência da repressão das Forças Armadas. Gahona morreu ao ser baleado na cabeça enquanto transmitia as manifestações contra Ortega via Facebook Live.

Dois jovens foram condenados no caso após um julgamento que foi descrito como "uma palhaçada" pela viúva do jornalista. Eles foram libertados em 11 de junho junto com os manifestantes.

"O povo da Nicarágua tem que estar seguro que tem uma geração de líderes prontos para tomar o poder. E tomar o poder de estabelecer a democracia na Nicarágua e restaurar o Estado de direito. E o próprio povo ganhou esse respeito a nível internacional de tal forma que toda a comunidade internacional está nos apoiando", disse Mora. "É por isso que Ortega está voltando atrás, querendo resolver seus erros, mas já não tem como voltar atrás, a mudança vem, e nada e ninguém vai impedi-la", enfatizou.




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