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Bolsonaro é criticado por usar informação falsa para atacar repórter que investigava suspeita de corrupção do filho dele



O presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, está sendo criticado após postar informações falsas sobre uma repórter do jornal O Estado de S. Paulo em seu perfil no Twitter.

Jair Bolsonaro (Antonio Cruz/Agência Brasil [CC BY 3.0 br (https://creativecommons.org/licenses/by/3.0/br/deed.en)])

Bolsonaro acusou a repórter de querer derrubar seu governo e “arruinar a vida” de seu filho Flávio, senador pelo PSL do Rio de Janeiro sob investigação por suposto desvio de dinheiro público. No entanto, não há evidências de que a repórter tenha dado a declaração pela qual o presidente a acusa.

“Constança Rezende, do ‘O Estado de SP’ diz querer arruinar a vida de Flávio Bolsonaro e buscar o Impeachment do Presidente Jair Bolsonaro. Ela é filha de Chico Otavio, profissional do ‘O Globo’. Querem derrubar o Governo, com chantagens, desinformações e vazamentos”, escreveu o presidente em tuíte acompanhado de um vídeo em que consta a foto da jornalista e a alegação de que ela teria dito que tem a intenção de “derrubar Bolsonaro”.

O vídeo inclui um áudio com trechos de uma conversa entre Rezende e uma pessoa que se apresentou a ela como Alex MacAllister, segundo informou o Estadão. A conversa tratava da cobertura do jornal da investigação sobre o suposto envolvimento de Flávio Bolsonaro em esquema de desvio de verbas e lavagem de dinheiro. MacAllister procurou a jornalista afirmando ser um estudante fazendo um estudo comparativo entre Bolsonaro e Donald Trump, afirmou o Estadão.

A conversa foi primeiramente divulgada pelo jornalista francês Jawad Rhalib em seu blog no site Médiapart no dia 6 de março. Dois dias depois, foi reproduzida no site americano Washington Times, que afirmou que a “esquerda repete o manual antiTrump contra o novo presidente conservador do Brasil”. No dia 10, foi publicada no site brasileiro Terça Livre, com uma manchete afirmando que Rezende havia dito que “a intenção é arruinar Flávio Bolsonaro e o governo”.

Segundo a checagem da Agência Lupa, é falso que a repórter tenha feito essa declaração. “A citação atribuída à repórter não aparece sequer na transcrição que a própria página [Terça Livre] faz de toda a conversa que a jornalista do Estadão teria supostamente mantido em inglês com um estrangeiro”, afirma a checagem.

O áudio divulgado pelo site brasileiro tem “frases truncadas e com pausas” e nele “não é possível escutar nenhuma vez a frase pinçada para o título da ‘reportagem’” do Terça Livre, escreve a Lupa. “Em determinado momento, a repórter avalia que ‘o caso pode comprometer’ e ‘está arruinando Bolsonaro’, mas não relaciona seu trabalho a nenhuma intenção nesse sentido”, acrescentou a agência de fact-checking.

Na manhã do dia 11, a página no Facebook do Terça Livre realizou uma transmissão ao vivo reiterando as alegações sobre a jornalista do Estadão. No vídeo, o editor do site, Allan Santos, exibe um tuíte que atribui a Rezende em que a pessoa que postou lamentava que “o Brasil virou uma ditadura”. “É dessa jornalista que estamos falando”, diz Santos na transmissão. No entanto, segundo o Estadão, nem o tuíte nem o perfil exibidos são de Rezende. O perfil @constancarezen, exibido no vídeo por Santos, consta como suspenso do Twitter.

Mediapart tuitou na tarde do dia 11 que “as informações publicadas no ‘club de Mediapart’, que serviram de base para o tweet de @jairbolsonaro, são falsas. O artigo é de responsabilidade do autor e o blog é independente da redação do jornal.” O site também expressou solidariedade a Rezende.

A Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) e a Organização dos Advogados do Brasil (OAB) publicaram no dia 11 uma nota conjunta em repúdio ao que classificaram como “ataque público de Bolsonaro à imprensa”.

Segundo as duas entidades, o compartilhamento de informações falsas pelo presidente “mostra não apenas descompromisso com a veracidade dos fatos, o que em si já seria grave, mas também o uso de sua posição de poder para tentar intimidar veículos de mídia e jornalistas, uma atitude incompatível com seu discurso de defesa da liberdade de expressão”. “Quando um governante mobiliza parte significativa da população para agredir jornalistas e veículos, abala um dos pilares da democracia, a existência de uma imprensa livre e crítica”, escreveram a Abraji e a OAB.

O Centro Knight entrou em contato com a jornalista Constança Rezende, que informou que foi orientada pela direção do Estadão a não comentar o caso. O Centro também tentou contato com a Secretaria Especial de Comunicação Social da Presidência da República, mas não obteve resposta até a publicação desta nota.




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