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Associação mexicana exige que novo governo reconheça crise humanitária de comunicadores deslocados pela violência



A associação Periodistas Desplazados Mexico (Jornalistas Deslocados do México) pede ao novo governo, do presidente Andrés Manuel López Obrador, que reconheça, política e legalmente, jornalistas e comunicadores que são vítimas do deslocamento interno forçado causado pela violência no país na última década.

Gildo Garza apresenta à ONU situação de jornalistas deslocados pela violência no México. (Divulgação).

Segundo a associação, das quase 330 mil pessoas que foram deslocadas internamente entre 2009 e 2017 no México - registradas pela Comissão Mexicana de Defesa e Promoção dos Direitos Humanos (Cmdpdh, na sigla em espanhol) -, há 70 jornalistas e comunicadores que tiveram que mudar de cidade com suas famílias, deixando tudo para trás.

"Temos um conflito muito grande em Guerrero, Tamaulipas e Veracruz, que são os estados com mais ataques contra comunicadores", disse Gildo Garza, representante da Periodistas Desplazados México, ao Centro Knight. "Em Coahuila e Chihuahua, no norte, temos violência de gênero contra colegas para a qual também estamos olhando."

Conversas com o novo governo

O grupo de transição do novo governo de López Obrador - que tomará posse em 1º de dezembro deste ano - vem organizando uma série de Fóruns para a Pacificação e Reconciliação do México em diferentes partes do país desde o início de agosto. O objetivo é abordar questões de violência com grupos de vítimas, ativistas, especialistas e diversas organizações da sociedade civil que defendem os direitos humanos, segundo RíoDoce.

Um desses fóruns acontecerá em Sinaloa no dia 14 de setembro, na Universidade Autônoma de Sinaloa, segundo Noroeste. As mesas de trabalho marcadas para esta data vão tratar das questões de tráfico de drogas, deslocamento forçado, desaparecimentos forçados, assassinatos relacionados a crimes e violência contra jornalistas.

Garza explicou que a Periodistas Desplazados México participará de um dos grupos de trabalho propostos em Sinaloa, junto com mais de 20 jornalistas dos Estados mais afetados pela violência no país. Segundo o jornalista, lá eles vão trabalhar com Alejandro Encinas, novo congressista e próximo vice-secretário de Direitos Humanos, População e Migração da Secretaria de Governo (Segob, na sigla em espanhol), e com Olga Sánchez Cordero, futura chefe da Segob.

O Centro Knight contatou dois representantes da equipe de transição do presidente eleito, Manuel López Obrador, mas não recebeu uma resposta a tempo para a publicação desta matéria.

De acordo com Garza, em abril deste ano, a associação que ele representa e outras organizações da sociedade civil conseguiram fazer com que a proposta de Lei para a Atenção às Vítimas de Deslocamento Interno Forçado fosse avaliada em comitês do Congresso. "Agora está congelada por causa da mudança administrativa e do novo governo, mas já estava sendo revisada. Esta foi uma iniciativa anterior, mas a Periodistas Desplazados MX deu o impulso principal para propor como lei", disse Garza.

O jornalista - que também vive a realidade do deslocamento interno forçado após receber ameaças de morte e sofrer uma campanha de difamação do crime organizado em 2017 - explicou que sua associação também está propondo uma emenda à Lei Federal do Trabalho.

"Os concessionários e editores em meios que ainda têm a responsabilidade de orientar [jornalistas] devem ser responsáveis ​​por seus colegas que estão ameaçados ou que sofrem um ataque. Na maioria dos casos, o meio de comunicação ou editor sempre demite o colega depois que ele ou ela é ameaçado ou agredido. Isso não pode continuar", disse Garza.

Ajuda aos jornalistas deslocados

Quanto aos recursos estatais existentes para proteger jornalistas, como o Mecanismo de Proteção aos Defensores dos Direitos Humanos e Jornalistas da Secretaria de Governo criado em 2012, Garza disse que o mecanismo pode levar até um mês para avaliar casos de ataques contra jornalistas.

"Esse é o tempo que muitos colegas não têm. Nós escolhemos às vezes removê-los de seus lugares, com nossos próprios meios, em menos de 24 horas, colocá-los em um lugar seguro e esperar que o Mecanismo cuide de sua situação", disse Garza. "O Mecanismo não pode mais ficar experimentando e arriscando vidas", disse ele.

A partir de outubro deste ano, o Mecanismo não terá orçamento para continuar proporcionando medidas preventivas e protetivas aos seus mais de 700 beneficiários, alertou o presidente da Comissão Nacional de Direitos Humanos (CNDH), Luis Raúl González Pérez, segundo El Universal. González disse durante a apresentação do estudo da CNDH sobre a situação dos ataques contra jornalistas no país que deve haver um maior compromisso por parte das autoridades para proteger aqueles que exercem a liberdade de expressão como atividade profissional no México.

Quanto à associação, Garza disse que, apesar de ainda não ter um site, ela trata dos casos de jornalistas em perigo que chegam a ela por meio de seu perfil no Twitter e sua página no Facebook. Também criou um grupo de WhatsApp, SOS Periodistas MX, para ser contatada por quem precisa de sua ajuda.

“Somos um grupo representativo do México e estamos lutando contra vários temas. Um deles é a violência que existe, o entorno de violência dos cartéis de drogas e agora o fenômeno da narcopolítica que trata de silenciar e exterminar os companheiros jornalistas”, explicou Garza.

A associação ajuda comunicadores ameaçados orientando-os no processo formal de estabelecer um precedente legal para sua situação. Provê informações sobre as instituições do Estado e os mecanismos governamentais de proteção aos quais eles podem recorrer, começando por apresentar sua queixa junto à Promotoria Especial de Atenção a Crimes Cometidos contra a Liberdade de Expressão (Feadle).

A associação é composta por uma equipe de 19 pessoas trabalhando em prol de jornalistas deslocados em todo o país, além da colaboração de quase 200 membros em todo o país, disse Garza. "Estamos dando até o que temos para comer. Agora estamos procurando maneiras de fazer as coisas", disse o jornalista.

Jan-Albert Hootsen, representante do México para o Comitê para a Proteção dos Jornalistas (CPJ), disse ao Centro Knight que sua organização está fornecendo assistência direta a Periodistas Desplazados México e seus membros, além de fornecer aconselhamento sobre o desenvolvimento da associação.

Em nome de seu grupo, em junho deste ano, Garza entregou um relatório em Genebra sobre a situação dos jornalistas deslocados no México para a Relatora Especial da ONU para os Direitos Humanos das Pessoas Deslocadas Internamente, Cecilia Jiménez-Damary.

A relatora, segundo Garza, comprometeu-se a rever a situação e sugerir recomendações de curto e longo prazo ao governo mexicano.

A partir dessa reunião, disse Garza, representantes dos governos da Áustria, do Japão e da União Europeia se ofereceram para colaborar. "A Áustria nos ofereceu asilar colegas e ajudar em projetos. O governo do Japão também, incrivelmente, ofereceu apoio em projetos para a proteção de jornalistas. A União Europeia ofereceu ajuda para projetos", disse o jornalista.

Com a ajuda da comunidade internacional, a associação planeja em breve ter seu próprio site, um portal nacional de informações e uma rede nacional de rádios comunitárias. "Queremos começar com cinco estações de rádio: em Tamaulipas, Guerrero, Morelos, Quintana Roo e na Cidade do México."

"O principal problema do jornalista em risco, do jornalista desalojado que tenta reconstruir sua vida, é a questão econômica de gerar os recursos de que ele precisa e, assim, conseguir uma reparação real de sua vida", concluiu Garza.




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