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Blog JORNALISMO NAS AMERICAS

O que você faria se fosse presidente? Jornalistas inovadores do Equador lançam um jogo interativo durante a cobertura eleitoral



Esta história é parte de uma série sobre Jornalismo Inovador na América Latina e Caribe.(*)


Os equatorianos compareceram às urnas em 19 de fevereiro para eleger um novo presidente que enfrentará vários desafios, entre eles a redução de um enorme déficit fiscal.

Para atrair esses eleitores em um ambiente politizado de internet onde muitos se queixam, mas poucos propõem soluções, a revista digital GKillCity lançou um projeto jornalístico inovador, desenhado para colocar os leitores no lugar do presidente.

“Reto Carondelet” (Desafio Carondelet), nome que faz referência ao Palácio Carondelet, a residência oficial do presidente do Equador, é um jogo online no qual os participantes tentam reduzir o enorme déficit de orçamento do país por meio de decisões sobre investimentos e gastos públicos.

O projeto, que faz parte do site que GKillCity estreou em novembro de 2016 dedicado às eleições presidenciais do Equador, respondeu à necessidade de explicar para a audiência a complexidade das decisões que o próximo presidente terá que tomar. O objetivo foi fazer isso de uma forma lúdica que ao mesmo tempo prendesse a atenção da audiência no tema eleitoral.

“A política se torna um tema superpopular em época eleitoral e sempre tem aquela pessoa que diz ‘eu faria isso…,’ ‘eu cortaria aquilo…’. Mas a maioria não tem ideia da magnitude e das consequências que essas decisões representam”, disse ao Centro Knight Isabela Ponce, uma das fundadoras de GKillCity.

No jogo, os participantes devem tomar um máximo de 40 decisões sobre investimentos e gastos públicos (10 por cada ano presidencial), que incluem eliminar ministérios, subir impostos, retirar subsídios e vender empresas estatais. Cada decisão tem uma consequência no orçamento, mas também na popularidade do “presidente”.

O jogador ganhará o desafio se conseguir tomar as decisões corretas para reduzir ao máximo o déficit do país sem cair para menos de 4% de popularidade. Por exemplo, se eliminar um subsídio para a gasolina reduz o déficit em mais de 300 milhões de dólares no jogo, também baixa a popularidade do “presidente” para 50%.

“Não há governo que possa resistir ao corte de um subsídio a qualquer custo. A sua popularidade está muito baixa e você está próximo de uma revolta social”, alerta o jogo quando o usuário decide retirar um subsídio.

“Reto Carondelet” foi lançado em 10 de fevereiro e uma semana depois já tinha registrado 9.9 mil visitas, além de mais de 1,5 mil compartilhamentos no Facebook. O jogo teve um alcance de 55.457 pessoas, do qual 39% é orgânico e o resto graças um pacote básico de anúncios na mídia social.

“Há muito entusiasmo em compartilhar o jogo, porque nunca houve um jogo político deste tipo no Equador. Sim, é uma novidade, e mais ainda em época de eleições, quando todo mundo quer falar disso”, afirmou Ponce.

Produzir um jogo interativo não é fácil para um meio independente como GKillCity, cuja equipe editorial tem quatro editores. Durante mais de quatro meses, os criadores realizaram um trabalho quase artesanal de coleta, organização e verificação de dados. Assim, consultaram especialistas externos em economia e política para desenhar as possíveis consequências que cada decisão teria na vida real.

“Foi um ‘trabalho de formiguinha’ para que tudo estivesse amparado na realidade, apesar de que colocamos uma advertência que são dados de referência. Temos a ideia de ir polindo o projeto”, disse Ponce. Ela esclareceu que os dados que aparecem vão somente até 2015, o último ano com dados completos disponíveis no momento de criação do jogo.

Os editores de GKillCity tinham claro desde o início que eles não iam lucrar financeiramente com o jogo. O investimento no projeto foi consideravelmente superior ao de todos os outros elementos que integram o seu portal sobre as eleições.

Como a publicidade não é uma das suas fontes de receita, o meio teve que recorrer aos recursos que geram como agência de content marketing para produzir o jogo.

“Estamos tão acostumados com o fato de os temas políticos não serem atrativos para as marcas, que nunca vimos o jogo como um negócio. Nem mesmo buscamos isso. Os temas políticos são muito delicados para os anunciantes, ninguém quer anunciar em um meio de comunicação que não está nem com o governo e nem com a oposição”, disse Ponce.

A jornalista confia que os bons resultados do Reto Carondelet vão servir como precedente para rentabilizar futuros projetos.

“Essas são novas formas de jornalismo, novas narrativas. No Equador estamos muito atrás em comparação com a América Latina no que diz respeito aos meios de comunicação independentes. A conjuntura política nos prendeu no cotidiano e não há espaço para a inovação, o que é muito triste. Queremos cobrir as coisas de forma distinta, acreditamos que isso não deveria se perder”, disse Ponce.

Os resultados da eleição de 19 de fevereiro ainda não são claros. Os eleitores estão esperando para saber se Lenin Moreno vai enfrentar Guillermo Lasso em um segundo turno ou se fica na dianteira com 40% dos votos necessários e uma diferença de 10 pontos percentuais. Moreno é o antigo vice-presidente do Equador e membro da Alianza País, o mesmo partido do atual presidente Rafael Correa. Lasso, que compete com um partido de centro-direita, é um empresário e fundador do movimento político Creando Oportunidades.


(*) Esta história é parte de um projeto especial do Centro Knight que é possível graças ao apoio generoso da Open Society Foundations. A série "Jornalismo de Inovação" cobre novas tendências de mídias digitais e melhores práticas na América Latina e Caribe.

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