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Entrevista com os fundadores de Symbolia, revista para tablets pioneira em "jornalismo em quadrinhos"




05-14_jr-headshot05-17_ep-headshotJoyce Rice (above) e Erin Polgreen, co-fundadores de Symbolia, por Joyce Rice

É um pássaro, é um avião, é ... jornalismo em quadrinhos?

Durante anos, os jornais e revistas utilizaram infografias e visualizações para suas reportagens, mas muito poucas publicações experimentaram usar caricaturas para contar uma história em vez de utilizar texto. O jornalismo em quadrinhos, segundo os fundadores da Symbolia, "a revista para tablets de jornalismo ilustrado",Erin Polgreen e Joyce Rice, buscam combinar imagens envolventes e multimídia com reportagens para atrair novas audiências.

"Vemos muitas palavras escritas hoje em dia, sinto que [o jornalismo em quadrinhos] permite que as histórias incorporem outras mídias, texto e áudio para gerar uma experiência mais íntima", disse Rice.

Symbolia lançou sua primeira edição em 3 de dezembro para iPads e em formato PDF. Em breve estará disponível para dispositivos Android e outros leitores eletrônicos.

Polgreen, editora e diretora-geral, e Rice, diretora criativa, falaram com o Centro Knight para o Jornalismo nas Américas sobre o lançamento de Symbolia e como planejam levar os quadrinhos das seções de humor às páginas principais.

Polgreen e Rice se conheceram fazendo voluntariado em uma organização em Chicago chamada Working Bikes. Entre jogos de mesa e clubes de leitura, desenvolveram uma amizade e se deram conta de que compartilhavam a paixão pelos quadrinhos.

Rice começou fazendo quadrinhos para um jornal na escola secundária e criou a edição digital de seu próprio quadrinho autobiográfico, Bird Wizards.

Apesar de seu amor pelos quadrinhos, Polgreen admitiu que nunca havia desenhado um. Isso não a impediu de pensar como os veículos de comunicação poderiam melhorar a narrativa e publicação de histórias de não ficção.

"Há uma nova geração de criadores web de quadrinhos que realizam trabalhos de não ficção. Gente como Wendy MacNaughton, Susie Cagle e Sarah Glidden; jovens que estão utilizando o poder da ilustração e a capitalização das redes sociais para promover suas criações", disse Polgreen, falando sobre sua motivação pelo jornalismo ilustrado.

Ela começou organizando painéis no Online News Association e no SXSW Interativo, entre outros, reunindo criadores de quadrinhos e repórteres para falar da utilidade da ilustração nas redações. Polgreen identificou o entusiasmo da audiência, o formato mais democrático para os leitores e o compartilhamento social como algumas das principais contribuições que as pessoas poderiam esperar do jornalismo em quadrinhos.

SaltonSea13Page from "Sea Change," reported and illustrated by Susie Cagle

Reportagem em quadrinhos

Os jornalistas de quadrinhos dividem o mesmo veículo que Batman e Peanuts, mas isso não significa que não podem tratar temas sérios e quantitativos. "Sea Change", uma reportagem de Susie Cagle na edição inaugural de Symbolia, conta a história da lenta e catastrófica mudança do Lago Saltón (Salton Sea) utilizando números e infografias, assim como histórias pessoais e clipes de áudio.

O processo de contar histórias no jornalismo em quadrinhos tem muitas semelhanças com o jornalismo narrativo, que combina a reportagem intensiva com histórias focadas em personagens e uma detalhada atenção com a cena. Mas da mesma forma que o Novo Jornalismo captura com palavras uma expressão no rosto de alguém, o jornalismo em quadrinhos o faz com tinta e pincéis.

Polgreen e Rice contaram que quando começaram a aceitar pitches para Symbolia, a maioria deles tratava de histórias internacionais. "Não esperávamos que Symbolia fosse ser uma publicação internacional, mas o número de pitches que conseguimos são sobre assuntos internacionais". Uma reportagem que será publicada mais adiante, "A História de Lolo", fala sobre uma família mexicana separada pela deportação.

A revista aceita pitches aqui.

Depois que o pitch é aceito, Polgreen e Rice trabalham com o repórter e com o ilustrador para identificar quais elementos da história seriam mais interessantes para os leitores. Elas encorajam seus criadores de quadrinhos a irem juntos a campo, tomar fotos e desenhar as cenas, em busca de imagens-chave, sons e personagens. "A colaboração é mais importante que só o aspecto visual", disse Rice.

Polgreen também observou que o jornalismo em quadrinhos pode facilitar a entrada dos jornalistas que buscam acesso a fontes reticentes. "Os quadrinhos podem ir aonde dispositivos de gravação não podem. Você pode obter mais informações de pessoas em situações desconfortáveis. Elas ficam mais intrigadas pelas pessoas desenhando que colocando uma câmera em seu rosto", disse ela.

Depois que a reportagem e o processo de verificação da informação é realizado, Rice trabalha em estreita colaboração com a equipe para dar forma à apresentação final. Para entender como os leitores podem navegar pela história, Rice e Polgreen entregam rascunhos do material a familiares ou amigos que não estejam familiarizados com o uso de tablets para ver como interagem com a história. Algumas vezes a experiência do usuário é muito diferente da que os criadores antecipam e o quadrinho precisa ser reorganizado.

Symbolia como notícia principal

A ironia de Symbolia ter sido lançada no mesmo dia em que The Daily, a primeira publicação exclusiva para tablets, anunciou seu fim, não foi uma tolice para Polgreen e Rice.

"Somos uma publicação muito diferente", disse Polgreen, salientando que começaram Symbolia com 34 mil dólares em bolsas e um staff de duas pessoas: ela e Rice. "Creio que a indústria das notícias pode aprender muito do movimiento Lean Startup".

Muitos observadores de mídia criticaram The Daily por restringir seu conteúdo aos tablets e não permitir aos usuários compartilhar facilmente suas histórias nas redes sociais.

amanazExcerpt from "Ask Me About Psych Rock in Zambia," illustration by Damien Scogin

"Newsstand da Apple é um interessante desenvolvimento para os diretores de mídia, mas também pode ser extremamente difícil conseguir que as pessoas falem sobre seu trabalho. Fazemos o intercâmbio social facilmente".

Essa é uma das razões pelas quai decidiram fazer uma versão em PDF junto com o lançamento para iPads. "As organizações de notícias têm que pensar seriamente sobre a experimentação em novos dispositivos que são muito caros", disse Polgreen, com o argumento de que o PDF permite que a revista seja "uma plataforma agnóstica" e acessível a mais pessoas.

"As coisas são muito diferentes agora", comentou Rice, "as publicações antigas que não se adaptarem às redes sociais e pensarem de maneira crítica sobre como acessar seus leitores vão ter muitos problemas".

Symbolia é uma empresa com fins de lucro. Polgreen descreveu suas fontes de receita como uma mistura de assinaturas e associações. Ela também disse que a revista experimentará com conteúdo patrocinado de outros criadores de quadrinhos de não ficção, ligando os leitores com comerciantes online.

Cenas do próximo capítulo ...

Polgreen e Rice disseram que esperam ver, nos próximos anos, uma adoção mais ampla do quadrinho-como-jornalismo nas redações. Já estão pensando em organizar workshops para conectar jornalistas e ilustradores para patrocinar mais projetos de jornalismo em formato de quadrinhos.

O lançamento de Symbolia foi amplamente celebrado pelos meios de comunicação e analistas de notícias, mas o formato enfrenta obstáculos para uma maior aceitação. Rice disse ao Centro Knight que a gente pensa que os quadrinhos -independentemente dos temas que tratem - são bobos, esperando uma piada no final. Mas ela é otimista sobre seu potencial para romper este estereótipo. "Gostaria de ver o jornalismo em quadrinhos se tornar irmão do jornalismo tradicional escrito".




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